O cabelo de uma médica contratada pelo programa Mais Médicos virou alvo de denúncia de racismo por parte da clínica geral Thatiane Santos da Silva, deslocada para prestar serviços na cidade de Santa Helena. A médica chegou à cidade no dia 6 de março e começou a trabalhar ontem (23). Na quinta-feira (19), no entanto, ela foi chamada para uma reunião com a secretária Terezinha Madalena Bottega que teria como pauta a organização das atividades a serem desenvolvidas dentro do programa Saúde da Família.

A médica, que é brasileira com graduação em Cuba e teve diploma reconhecido pelo Revalida, denunciou que ficou surpresa ao chegar para a reunião e ouvir da secretária que precisava falar sobre o cabelo estilo dreadlocks da profissional. Thatiane postou uma mensagem no blog “Ofensiva Negritude” sobre o que aconteceu na reunião com a secretária e uma assessora direta de Terezinha e pelas redes sociais a mensagem se espalhou rapidamente.

-------------- Notícia continua após a publicidade -------------

Segundo a médica, a assessora da secretária teria perguntado se ela usava aplique porque o cabelo exalava um cheiro forte e que Terezinha teria completado dizendo que parecia odor de incenso. As duas teriam dito à Thatiane que os pacientes estavam acostumados com outro “padrão de médicos” e que ela poderia encontrar dificuldades pelo preconceito que pacientes poderiam ter em função do cabelo. “Sinceramente me senti sim discriminada, posto que o que pensam a respeito da minha aparência é pessoal de cada indivíduo, porém não necessariamente deve ser verbalizado sem saber que podem gerar consequências para além das legais, psicológicas, físicas, mentais e espirituais”, afirmou pelas redes sociais.

Thatiane faz questão de dizer que é preta, africana, mulher, de dreadlocks e médica. “Quer queiram, quer não”. Ela contou que na reunião disse à secretária que mais de 50% da população brasileira é composta por negros e que discriminação e preconceito não iria influenciar em sua capacidade profissional e na relação com os pacientes. Ela completou dizendo que não gostaria de ouvir comentários sobre seu cabelo. “Cada pessoa deve ser respeitada independentemente de seu cabelo, cor da pele, crenças ou escolhas pessoais”, declarou. Depois disso, aí sim, a secretária começou a falar sobre as ações de saúde que ela irá desenvolver.

Visual

A secretária de saúde, Terezinha Madalena Bottega, confirmou a reunião com a médica, disse que tudo o que a Thatiane colocou na postagem realmente aconteceu no encontro, mas negou que tenha sido um ato de racismo. “Não foi nenhum ato de racismo da nossa parte. A gente quis alertá-la de possíveis comentários porque não estamos acostumados a esse tipo de visual”, afirmou. Ela disse ainda que como gestora se sente no direito de organizar o serviço e auxiliar Thatiane como médica, em tudo o que for possível.

Terezinha afirmou que a conversa foi pacífica e tranquila. “Depois que a gente começou a receber e-mails informando sobre a postagem. Diante disso fiquei meio sem atitude porque não sabia com quem estava lidando”, disse a secretária. Ela afirmou ainda que se retratou e pediu desculpas à médica e entrou em contato com o programa Mais Médico para falar sobre a polêmica e a resposta foi que o Ministério da Saúde não interfere na questão. Segundo ela, o programa federal informou que ambas as partes devem resolver a polêmica. “Só pediram para mantê-los informado”, relatou. Segundo a secretária, a médica teria dito a ela que vai processá-la.

Em Santa Helena, nove médicos atuam no programa federal e oito deles são negros – quatro cubanos e quatro brasileiros que estudaram em Cuba. A reportagem tentou contato com a médica Thatiane Santos da Silva. A Secretaria de Saúde informou que ontem ela iniciaria as atividades na unidade de saúde do distrito de São Clemente, mas em contato com o posto a informação é de que ela estava realizando atendimentos externos.

medica-santa-helena-diz-que-sofreu-racismo

Portal Guaíra com informações da CGN/Gazeta do Paraná