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Os sucessivos anúncios de investimentos e operações especiais contrasta com a realidade da segurança pública nas fronteiras e, particularmente, com as condições de trabalho da Polícia Federal, principal instrumento de combate ao contrabando e ao tráfico de drogas. Uma série de manifestações realizadas ontem pelo País não só colocou em xeque a propaganda oficial, como expôs dados que comprovam o descaso do governo federal com o setor.

No Paraná, o protesto ocorreu em frente à Delegacia da PF em Foz do Iguaçu. Lá, cerca de 50 policias estenderam cartazes e enxugaram gelo para simbolizar que sem estrutura o trabalho não tem resultado.

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Conforme a presidente do sindicato local do Sinpef (Sindicato dos Policias Federais do Paraná), Bibiana Orsi Silva, em virtude da falta de estrutura os policiais não têm condições de fazer frente à criminalidade, especialmente no que se refere à corrupção. “Há muito tempo que temos falta de efetivo, principalmente nas delegacias de fronteira, onde estamos de mãos atadas. Além disso, faltam tecnologias de inteligência e a própria qualificação do efetivo. Dessa forma, não podemos combater o crime. A população tem saído às ruas e defendido investimentos em educação e saúde, por exemplo, mas não adianta chamar a atenção para esses problemas se não há estrutura da PF para fiscalizar esses recursos e impedir que esse dinheiro seja desviado no meio do caminho. Ou seja, não temos condições de evitar a corrupção”, destaca Bibiana, revelando um cenário preocupante.

Diante desse descaso, policiais de outras unidades da PF do Paraná e de todo o Brasil realizaram ontem a marcha rumo a Brasília. O objetivo é para acompanhar os trabalhos da Frente Parlamentar de Apoio à Reestruturação da Polícia Federal.

Segundo Bibiana, a principal arma no combate à corrupção e à criminalidade é a reestruturação da polícia. “A intenção é mudar o próprio modelo de segurança pública, onde o mais importante é evitar o crime e não aumentar ainda mais a população carcerária do País”, pontua.

A presidente do sindicato acredita que mudanças só serão realmente alcançadas quando a sociedade também aderir à luta. “Não estamos pedindo aumento de salário, mas uma melhoria para assegurar a qualidade de um serviço que vai contribuir com toda a sociedade. O povo sabe que é a PF que denunciou as principais organizações criminosas do Brasil e que desmascarou o mensalão, por exemplo, e nós queremos continuar esse trabalho, mas precisamos de estrutura inteligente. Acredito que enquanto a população civil não se envolver com a questão da segurança, muitos problemas ainda vão ocorrer por conta de desvio de verbas públicas. A nota luta é em defesa da sociedade”.

Em ato simbólico, policiais federais secam barras de gelo em frente à Delegacia da PF em Foz do Iguaçu (foto: Rádio Cultura Foz)
Em ato simbólico, policiais federais secam barras de gelo em frente à Delegacia da PF em Foz do Iguaçu (foto: Rádio Cultura Foz)

MARCHA A BRASÍLIA

Após vários anos e sucessivas tentativas frustradas de negociação com o governo federal, policiais federais de vários estados se deslocaram para Brasília para a Marcha pela Reforma da Polícia Federal.

A concentração foi realizada no Congresso Nacional, local onde foi lançada oficialmente a Frente Parlamentar em Apoio pela Reestruturação da Polícia Federal. A frente, composta por oito parlamentares e coordenada pelo deputado federal Otoniel Lima (PRB), tem como objetivo discutir a atual situação da Polícia Federal e promover mudanças em sua estrutura orgânica e de carreira, além de melhorias nas condições de trabalho dos servidores e aumento da qualidade das investigações.

“A ideia da Frente Parlamentar surgiu depois da minha visita à Ponte da Amizade. Percebi que a situação do prédio e dos agentes era sub-humana e as reuniões com os representantes sindicais deixaram essa visão mais nítida ainda: o Departamento de Polícia Federal precisa de socorro”, disse Otoniel Lima.

RAIO-X DAS CONDIÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL 

Falta plano de carreira: A categoria ganhou caráter de nível superior em 1996, porém não existe um plano de carreira. Profissionais experientes não ascendem, não assumem cargos de chefia e não têm oportunidade de passar adiante suas vivências. Alguns acabam sendo comandados por recém-empossados, sem experiência. Enquanto isso, nas melhores polícias do mundo, como o FBI, a experiência e a competência são os verdadeiros critérios para indicação dos cargos de chefia.

Perseguições: Pesquisa em andamento pela Fenapef aponta que aproximadamente 30% dos ocupantes de três cargos (agentes, escrivães e papiloscopistas) se submetem ou já se submeteram a tratamento psicológico ou psiquiátrico por conta de um ambiente de trabalho contaminado pelo assédio moral.

Evasão: Aproximadamente 200 policiais federais treinados deixam a PF todos os anos. Muitos migram para outros concursos mais atraentes. O número de empossados não é suficiente para compensar essa diminuição do atual quadro.

Qualidade: Os agentes, escrivães, papiloscopistas e administrativos clamam por modificações que refletem na qualidade de vida e de trabalho, com maior investimento na capacitação dos servidores e nos recursos materiais da Policia Federal.

Câmara dos Deputados aprova adicional de fronteira para policiais

A Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei que prevê um adicional de fronteira para policiais federais, civis e rodoviários, além de auditores da Receita Federal, cargos do Ministério da Agricultura e do Ministério do Trabalho que exercem atividade nas fronteiras do Brasil.

O deputado federal Fernando Francischini, do Paraná, solicitou urgência para o tema e participou da votação e aprovação do Projeto, que tem como objetivo estimular a fixação de profissionais em localidades consideradas estratégicas pelo governo federal para a repressão de crimes que ocorrem em fronteiras, como tráfico internacional de drogas e contrabando.

Segundo Francischini, “a indenização é imprescindível para o fortalecimento dessas instituições, pois reduz os empecilhos para a permanência e ampliação do número de servidores que trabalham estrategicamente pela prevenção, controle, fiscalização e repressão dos delitos de fronteira”.

Marcha pela Reforma da Polícia Federal reuniu policiais de todos os estados em Brasília
Marcha pela Reforma da Polícia Federal reuniu policiais de todos os estados em Brasília

Fonte: Crislaine Güetter/O Paraná