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[dropcap color=”#dd9933″]“A[/dropcap]credito que somos muito mais do que essa casca temporária chamada de corpo material. Se o nosso corpo pode ser útil mesmo após estar livre de suas funções vitais, seria um egoísmo imenso deixá-lo simplesmente para apodrecer.” É dessa maneira que Miguel Mozzilli explica o que o levou a doar seu corpo para estudos após seu falecimento. Mozzilli é uma das três pessoas de uma mesma família que realizaram a doação de seus corpos para a Universidade Federal do Paraná para uso em aulas de Anatomia. O ato aconteceu no dia 28 de setembro.

Miguel Mozzilli (60 anos), seu irmão Marcelo Mozzilli (52) e sua mãe Miris Mozzilli (80), escolheram a UFPR para ceder seus corpos por considerá-la uma instituição séria, com objetivos definidos e por terem ciência da carência da instituição no que diz respeito a esse tipo de recurso.

O principal objetivo da doação é que os corpos sejam utilizados, posteriormente, na disciplina intitulada “Anatomia Prática com Dissecação”, do curso de Medicina, que atualmente é coordenada pela professora Djanira Aparecida da Luz Veronez.

Segundo Djanira, atualmente o Departamento de Anatomia da UFPR possui 24 cadáveres humanos para o estudo prático nos cursos de graduação na área de Saúde Humana. “O departamento recebe, em média, dois cadáveres por ano, provenientes de manifestação de doação em vida por meio de escritura de doação de corpo”, conta a professora. Segundo ela, o ideal seria receber em torno de 20 cadáveres por semestre.

Os estudantes aprendem anatomia de diversas formas – em livros, com professores, em softwares -, mas o estudo na prática com corpos humanos é considerado fundamental. “O cadáver é um importante protagonista na formação com excelência dos alunos de graduação na área da Saúde Humana. Ao estudarem em cadáveres humanos reais, os estudantes aprendem Anatomia Humana, Neuroanatomia, Anatomia Médica-Cirúrgica e Esplancnologia, que serão aplicadas em seus futuros pacientes”, explica Djanira.

A professora lembra que, no passado, os alunos aprendiam que o cadáver era seu primeiro paciente, devido à possibilidade de vivência e grande aprendizagem. Com a escassez de cadáveres disponíveis na universidade, a atividade de dissecação, clássica no passado, esteve ameaçada de deixar de existir.

Para tentar reverter a situação, o departamento está trabalhando desde 2008 para divulgar a importância da doação de corpos para o ensino e pesquisa. “Semanalmente, orientamos , sobre os trâmites legais pessoas interessadas na doação e familiares que perderam entes queridos que haviam manifestado o interesse de doar seus corpos em vida, mas por algum motivo não o fizeram”, revela Djanira. Segundo ela, este é um ato difícil de ser feito pela família no momento da dor da perda de algum parente, por isso há o cuidado e a sensibilidade de fazer o acolhimento das famílias.

Procedimento
Realizar o procedimento de doação de corpo em vida e por meio dos caminhos legais é a forma mais segura para se certificar de que sua vontade realmente será atendida. Mozzilli conta que fez uma procuração no cartório para legalizar seu desejo.

Djanira explica que, chegando ao Departamento de Anatomia, o corpo humano doado é recebido por técnicos preparadores de peças cadavéricas e docentes que vão realizar os procedimentos de remoção de sangue e introdução de produtos químicos utilizados para fixar os tecidos biológicos. “Em seguida, o corpo é acondicionado em um tanque com solução conservante por um período de, aproximadamente, seis a sete meses”.

Os corpos humanos doados podem ser utilizados para estudo por cerca de 20 a 30 anos. “Quanto maior for o cuidado no manuseio e nas manipulações durante as aulas práticas, por mais tempo o cadáver será utilizado”, revela a professora.

Importância
Embora não seja um profissional da saúde, o empresário Mozzilli avalia a importância da doação de corpos e acredita que existe grande diferença quando se aprende em um corpo humano real: “Examinar um órgão real, localizá-lo em seu espaço e senti-lo na realidade deve proporcionar ao estudante a sensação de que aquilo que está expresso nos livros é muito mais do que frases organizadas”.

O empresário diz que se alegra em poder ser útil à sociedade mesmo após seu último suspiro: “Atualmente sinto-me como uma enciclopédia ambulante de Anatomia, aguardando o essencial momento para começar a ser lido”.

Para Djanira, de forma lenta e gradativa as pessoas passarão a ter consciência de que a doação de corpos é um ato nobre. “É uma atitude que contribui com a diminuição do impacto ambiental dos cemitérios, além da grande contribuição com a formação dos profissionais da área da Saúde Humana e do apoio às pesquisas científicas”.

Portal Guaíra com informações do Bem Paraná


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