As suspeitas cogitadas no início da manhã de ontem de que uma menina indígena de apenas 11 meses tivesse morrido na madrugada desta quarta-feira (6) após sofrer abuso sexual e violência física pelo próprio pai na aldeia Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, reacende uma discussão no mínimo delicada e difícil de ser tratada.

Apesar de as suspeitas de ontem não terem sido confirmadas, casos efetivos de violência e de abuso sexual são comuns, tratados e punidos apenas internamente. Na Aldeia Rio das Cobras, onde vivem 2,8 mil índios, 387 são crianças de zero a cinco anos e é entre elas onde muitos casos acabam sendo mais comuns.

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Porém, os mais velhos não fogem dos atos criminosos. O levantamento não faz parte de nenhum dado científico, mas vem sendo acompanhado por educadores. A média de idade para a iniciação sexual, seja ela intencional ou por meio de violência, é de 10 anos.

Casos assim já foram muito comuns à rotina local e, apesar de algumas tentativas para que cessem, eles diminuíram, mas não deixaram de existir.

Educadores montam esquema para denúncia de infratores

Segundo o secretário de Educação do Município, Luciano Rodrigues da Silva, que atuou durante dois anos como coordenador da Educação Indígena do Núcleo Regional de Educação na cidade, existiam inúmeras situações confirmadas de abuso, como a suspeita de ontem, principalmente os sofridos por crianças.

“Era muito comum as vermos chegando à escola com machucados, com comportamentos diferentes, estranhos, com doenças, quando se observávamos a fundo o que tinha acontecido enxergávamos que eram vítimas de violência e ou abuso sexual”, alertou.

A situação chegou a limites extremos e os professores começaram a estimular as próprias crianças para que denunciassem. Envolveram outros órgãos e foram realizadas ao menos quatro audiências públicas, com o Ministério Público Federal e as forças policiais.

Para quem não se sente a vontade para falar com os pais, professores e líderes indígenas, foram afixados dentro da aldeia, em diversos locais, cartazes com o número 190 da Polícia Militar. “Orientamos para que liguem quando sofrerem algum tipo de abuso”, afirmou.

Ex-cacique também cometeu abuso sexual

O que antes era visto com muita normalidade, passou a ser mais temido quando tratado como crime, Segundo fontes oficiais, o antigo cacique que deixou a função há pouco mais de sete meses teria sido afastado da função após cometer abuso sexual dentro da aldeia.

“Com a mudança do cacique fizemos um acordo de que estaríamos sujeitos à lei dos brancos. Desde então, quando existem casos assim dentro da aldeia a Polícia e o Conselho Tutelar são informados”, afirmou a assistente social, Ieda Cornélio, que também é indígena e vive na comunidade Rio das Cobras.

Na prática a tramitação não é exatamente essa. A própria assistente social admite que muitos casos são tratados apenas internamente e que só são levados adiante se forem considerados “graves”. Há uma espécie de cadeia dentro da aldeia onde os índios que comentem alguma infração ficam detidos por um tempo depois são liberados.

Fonte: Juliet Manfrin / O Paraná
Fotos: Ailton Santos