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Em um estado monopolizado por grandes latifundiários, inclusive políticos que detém sucessivos mandatos, Mato Grosso do Sul é o estado onde se mata mais índios no Brasil, aponta relatório divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

A mais recente vítima foi o índio terena Oziel Gabriel, durante confronto com policiais em reintegração de posse na fazenda Buriti, em Sidrolândia, cidade a 72 km de Campo Grande.

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A morte do índio abalou a estrutura governamental, a ponto de a presidente Dilma Rousseff convocar todo seu sfat político, inclusive ministros e parlamentares de sua base aliada, na tentativa de resolver a questão da demarcação de terras indígenas no Estado, apesar da resistência dos fazendeiros, que não querem entregar as terras sob argumento de que foram tituladas pelo próprio governo.

Além do índio morto, outras 14 pessoas saíram feridas, inclusive policiais, na “guerra” no campo em solo sul-mato-grossense.

A repercussão negativa na imprensa nacional e internacional com a morte do índio apressou o Palácio do Planalto, que mandou ao Estado o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça). Além de mobilizar a bancada federal, o assunto se transformou em pauta constante na Assembleia Legislativa, onde os deputados estaduais Zé Teixeira (DEM) e Mara Caseiro (PTdoB), representantes dos produtores, Laerte Tetila e Pedro Kemp (PT), defensores dos índios, tem provocado os debates.

Diante do impasse, a Assembleia promoveu uma audiência pública para discutir uma saída para a questão da demarcação de terras em Mato Grosso do Sul.

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Relatório

De acordo com relatório do Cimi, Mato Grosso do Sul registrou 37 assassinatos de indígenas em 2012, segundo o Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, divulgado na quinta-feira (27) pelo órgão ligado à Igreja Católica.

Com 61,6% do total de assassinatos de indígenas registrados no Brasil, o estado continua à frente no número de casos no país.

O estado já ocupava o primeiro lugar no ranking. Segundo o órgão, Mato Grosso do Sul registrou 32 assassinatos de indígenas em 2011, cinco casos a menos do que no ano passado. O relatório aponta que 34 dos 37 indígenas mortos em 2012 eram da etnia guarany-kaiwá, dois eram terena e um era da etnia guarany-nhandéwa.

Ainda segundo o relatório, uma das principais causas do aumento no número de casos de violência, é o confinamento dos índios nas reservas das cidades de Dourados, Amambai e Caarapó, localizadas na região sul do estado.

Segundo o coordenador regional do Cimi em Mato Grosso do Sul, Flávio Vicente Machado, o alto número de homicídios está ligado à questão fundiária.

“Na visão do Cimi, os homicídios entre os indígenas está ligado a situação fundiária. Os indígenas estão confinados em pequenos espaços e, com esse confinamento, houve um esfacelamento interno de controle da violência. Quando há brigas entre vizinhos, por exemplo, as pessoas ao redor se afastam, em um espaço pequeno isso não é permitido”, disse, conforme o G1.

Nos últimos dez anos, os levantamentos feitos pelo Cimi mostram que 563 indígenas foram assassinados no país, sendo que 317 destas mortes ocorreram no Mato Grosso do Sul.

De acordo com Machado, os homicídios estão relacionados com conflitos internos e não têm ligação direta com disputas por terras com produtores.

“Os casos não estão diretamente ligados, mas isso não exclui a situação de tensão que existe, principalmente no sul do estado. Todos os casos estão ligados a situação territorial. Em áreas onde a população tem espaço, como os kadiwéu, os índices de homícidio são baixos ou não existem”, explicou.

O relatório aponta ainda que Mato Grosso do Sul registrou o maior número de suicídios de indígenas, com 19 casos.

No total, foram registrados 54 casos de suicídios de indígenas no país. Rio Grande do Sul registrou 11 casos, seguido de Roraima e do Pará, onde foram registrados sete casos em cada estado; e de Santa Catarina, com seis casos.

De acordo com Machado, suicídio é o índice mais triste e mais alarmante em termos de população indígena. Segundo ele, esse número retrata acima de tudo a situação de território em que a população indígena vive. “Em um local pequeno, os indígenas não podem reproduzir os costumes”, disse, explicando ainda que os índios têm crenças vinculadas ao local onde moram.

“A população [indígena] possui uma forte espiritualidade vinculada à mata e como não há, existe uma desordem no mundo dos espíritos e os guaranys atribuem os altos índices de suicídio a essa desordem”, explicou.

Além da falta de espaço, a interferência externa também é responsável pelos altos índices, na opinião de Machado.

“As pesquisas demonstram que dois fatores são considerados principais em em casos de suicídio. O primeiro é a influência e pressão exercida pela sociedade externa sobre as comunidades, como o preconceito, racismo, interferência e a facilidade de acesso a drogas e bebidas. O segundo é a falta de perspectiva, mais de 90% dos casos de suicídio são de pessoas na faixa de 14 a 29 anos. São jovens que não têm perspectiva, porque não tem terras, emprego e como sustentar uma família”, disse.

Já o número de casos de racismo e discriminação étnica e cultural contra indígenas diminuiu. Em 2012, foram registrados 11 casos no Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rondônia e Roraima. Em 2011, foram 20 casos.

“O que se percebe através das redes sociais e de comentários em matérias jornalísticas nos sites é que o preconceito faz parte do senso comum da população. As pessoas nem percebem quando chamam um índio de burro, bugre. É lamentável”, disse.

Um caso chamou mais a atenção do Cimi no estado. Em abril de 2012, uma jovem publicou, nas redes sociais, mensagens com teor racista contra o grupo de rap indígena Brô MC’s, do município de Dourados. As postagens foram feitas após a apresentação dos cantores no programa TV Xuxa.

Em uma das mensagens, a jovem chama os rappers de “índios fedorentos”. Dois dias depois, a usuária postou um “pedido de desculpas” pelos comentários. O MPF-MS (Ministério Público Federal) abriu um inquérito para investigar o caso.

De acordo com Machado, a solução para diminuir ou acabar com o preconceito é um forte processo de educação sobre os costumes indígenas.

Fonte: ConjunturaOnline