A demora do cumprimento de reintegrações de posse acirra as divergências entre agricultores e indígenas de Guaíra. Diante das ocupações iniciadas há cinco anos, o clima de tensão aumenta e os agricultores decretaram um basta. Eles estão preparados para enfrentar os índios, caso ocorra uma nova invasão. O risco de um conflito é grande. “Em Guaíra não cabe mais invasões. Se invadirem, serão arrancados. Os produtores estão em ponto de guerra. Ou a Justiça tira [os índios] ou nós tiramos. Não vamos mais aceitar o desrespeito ao nosso suor”, declara Silvanir Rosset, presidente do Sindicato Rural Patronal de Guaíra.

Pacificamente, indígenas percorreram as ruas de Guaíra
Pacificamente, indígenas percorreram
as ruas de Guaíra

Ontem as tribos que vivem em áreas da região fizeram uma manifestação pelo centro da cidade para cobrar a derrubada de proposta da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 215, que transfere a demarcação de terras do Executivo ao Legislativo. Atualmente o estudo para as desapropriações é gerido exclusivamente pela Funai (Fundação Nacional do Índio).

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O cacique Wilson Kamu Okaju afirma que já recebeu ordens judiciais para deixar as áreas. Porém, as medidas não foram cumpridas. “Estamos em uma condição difícil. Já houve ordem de reintegração. Mas não vamos sair, estamos em um lugar que é nosso”, contesta.

Faixas e cartazes foram usadas pelos indígenas para expor as reivindicações. A manifestação ficou concentrada em frente a prefeitura. Por mais de uma hora os índios ficaram na porta do prédio e cobraram negociações com políticos e entidades de classe. O atendimento precisou ser suspenso e as portas fechadas. “Não aceitamos a PEC. Ela é inconstitucional. É o índio que começou a história, lutamos pela demarcação. Queremos nossos direitos garantidos pela Constituição Federal”, afirma o cacique.

Já os agricultores defendem a PEC 215, em tramitação na Câmara dos Deputados. “A única solução é o parecer do Congresso. Quem deve falar se a área é de índio são nossos representantes. Eles que vão decidir, a favor ou contra o índio. Hoje a Funai tem poder total. Os antropólogos dizem que é área indígena, e os agricultores têm apenas 90 dias pra se defender”, contesta o presidente do Sindicato Rural Patronal.

Estão no alvo de mandados de reintegração as aldeias Tekoha Yhovy e Tekoha Porã, ambas constituídas sobre propriedades privadas. O policiamento na cidade foi reforçado. A manifestação foi considerada pacífica. Atualmente 900 indígenas vivem em áreas de Guaíra, divididos em oito aldeias. Pela constatação do Sindicato Rural Patronal, são onze áreas invadidas. A demora da Justiça em cumprir os mandados revolta. “Enquanto não houver uma enxurrada de sangue, não decidirão nada. Parece que não fazem questão de resolver a situação. Vai precisar ocorrer um confronto para resolverem essa questão. Tudo isso é culpa do Ministério da Justiça”, complementa o presidente do Sindicato Rural Patronal.

COBRANÇAS

Outra cobrança dos indígenas está relacionada a infraestrutura das áreas invadidas. As famílias vivem sem água potável. As caixas de água estão vazias e a única fonte é o rio. Há um mês, mais uma área foi ocupada pelos indígenas. Após negociações, eles deixaram a área agrícola. A cobrança era por escolas, rede elétrica e água tratada. As reivindicações ainda não foram atendidas.

População ficou em frente a prefeitura; portas foram fechadas com a manifestação (foto: Aílton Santos/O Paraná)
População ficou em frente a prefeitura; portas foram fechadas com a manifestação (foto: Aílton Santos/O Paraná)

Fonte: Jornal O Paraná
Fotos: Aílton Santos