Eles são importados como mão de obra barata, relativamente qualificada pela bagagem e experiência que trazem dos empregos anteriores e que pode ser considerada uma condição de trabalho análogo escravo. Na maioria das vezes estão no Brasil irregularmente e dão suporte a uma rede que não para de crescer: fábricas clandestinas e irregulares de cigarros falsificados.

O lado paraguaio da fronteira, principalmente regiões como Cidade do Leste e Salto Del Guairá, tem servido como um importante fornecedor de profissionais para essas indústrias do lado de cá. Elas estão crescendo assustadoramente e somente neste ano quatro consideradas de médio e grande portes, uma no Paraná, uma em Pernambuco, uma no Rio Grande do Sul e a outra em São Paulo, foram fechadas pela polícia.

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Um dos principais aspectos que todas têm em comum? A característica dos colaboradores, com exceção do eletricista e do mecânico. Todo o “chão de fábrica” é composto por pessoas vindas do país vizinho e que já trabalharam na área.

A última indústria clandestina lacrada no Brasil, no estado de Pernambuco, contava com pelo menos dez desses profissionais.

Por aqui os salários costumam ser baixos e eles não podem deixar os alojamentos. Isso dificulta a localização das unidades, geralmente bem camufladas por aviários e outras granjas, em propriedades rurais isoladas. Nesse último caso, a fábrica operava com duas linhas de produção, ou seja, sem intervalos. Eram 24 horas de trabalho acelerado que precisava compensar até o momento em que fossem descobertos. Assim como no caso do contrabando do produto, os proprietários são os que menos aparecem e na maior parte dos casos permanecem impunes.

Essa unidade específica era subterrânea com um dormitório que mais parecia um abrigo de refugiados equipados com o mínimo de conforto. Esses funcionários costumam ficar nas fábricas em torno de três meses quando outra leva também absorvida da região, os substituía.

O recrutamento costuma ser simples. As quadrilhas vêm à fronteira e os encontra, segundo a investigação de uma das principais multinacionais que atua regularmente no Brasil, com muita facilidade, principalmente porque o Paraguai é hoje o principal fornecedor de cigarros contrabandeados ao Brasil, com mais de 60 fábricas identificadas pelas investigações policiais.

Como os profissionais contratados do lado de cá são estrangeiros, geralmente ficam impunes. São raras as exceções onde ficam detidos. Isso só tem ocorrido quando não possuem vistos para trabalhar no Brasil.

Fumo fornecido às fábricas clandestinas vem da Argentina

O grande fornecedor de fumo às indústrias brasileiras clandestinas é a Argentina, mas engana-se quem pensa que não há o nacional no meio. Muitos cultivos já assegurados às multinacionais que operam no modelo integrado, ou seja, bancam o custeio pela garantia das plantações, são “roubados” e desviados até essas fábricas.

Sua especialização é a falsificação de carteira que atendem as classes D e E, menos exigentes, mesmo assim com direito a selo, embalagens e lacre idênticos aos originais.

O cigarro também vem repleto de outras impurezas, mas está agregado a mais uma vantagem aos seus distribuidores. Produzidos dentro do País não existe o risco da travessia na fronteira, geralmente feita por barcos e lanchas e que acaba tendo um risco maior de serem pegos. “Se não precisa atravessar o rio, fica mais fácil mobilizar as cargas aqui dentro e esse produto, muito parecido esteticamente com o nacional, atende os grandes centros”, conta um profissional que faz serviços reservados de investigação a uma multinacional.

O alvo são os consumidores de São Paulo, Rio de Janeiro, algumas regiões do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e estados do Nordeste.

Esse fator vem agregado aos preços que costumam ser mais baixos que os tabelados. Tudo porque há sonegação de todos os impostos em uma carga tributária bastante elevada internamente para o produto e que deve chegar até o ano de 2015 em 74% sob o valor do produto nacional.

Sobre os equipamentos

Os equipamentos utilizados na transformação do produto têm a marca das grandes fábricas legalizadas. São máquinas antigas geralmente adquiridas em leilões por funcionários das multinacionais que acabam revendidos às quadrilhas de falsificadores. Todas as máquinas lacradas neste ano foram apreendidas pela Polícia Federal e levadas à Receita Federal.

Outro aspecto curioso é que elas são movidas pela energia produzida por geradores vendidos na maior parte dos casos por uma grande indústria do Rio Grande do Sul. Tudo para não despertar a curiosidade quanto ao excesso nos gastos de luz.

Fonte: Juliet Manfrin – O Paraná

Foto: Ailton Santos