Implantado com o propósito de barrar a entrada de drogas, armas e contrabando, o BPFron (Batalhão de Polícia Militar de Fronteira) fica em uma região com bases articuladas do crime organizado no Paraná. O Lago de Itaipu, portos clandestinos e estradas secundárias são utilizados estrategicamente por grupos armados que chegam a ameaçar agricultores.

Policiais chegam a propriedade rural e avaliam carga com droga e contrabando
Policiais chegam a propriedade rural e avaliam carga com droga e contrabando

O desafio para o grupo criado para combater a criminalidade é a corrupção na corporação. Uma fonte que será preservada pela reportagem de O Paraná revela a cooperação de policiais do BPFron com o tráfico. Há uma semana e meia – em 28 de setembro – os policias barraram uma carga de maconha e produtos contrabandeados. Em um caminhão, de Serranópolis do Iguaçu, foram encontrados 64,8 quilos da droga, além de 364 pacotes de agrotóxicos. A carga estava em uma propriedade rural da Linha Horizonte, perto do Clube Lira, em Marechal Cândido Rondon. A carroceria possuía placa de Campo Novo do Parecis, Mato Grosso.

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No boletim oficial que a reportagem de O Paraná teve acesso consta que o motorista, supostamente envolvido nos crimes de contrabando e tráfico, fugiu do local com a chegada do grupo de operação do BPMFron. O suposto motorista estava no GM/Meriva, que horas mais tarde, conforme os policiais envolvidos na ação, foi encontrado abandonado na garagem de residência no Loteamento Frei Freitag, no município de Marechal Cândido Rondon. “A equipe deslocou até o local, momento em que um indivíduo evadiu-se do local, e com o apoio de um veículo GM/Meriva, cor prata, de Marechal Rondon, saiu em alta velocidade”, consta no boletim de ocorrência, de 28 de setembro do BPMFron.

Mas a reportagem de O Paraná, com exclusividade, conseguiu provas de outra versão sobre o caso. Em fotografias, o grupo de policiais envolvidos na operação do BPFron aparece realizando a apreensão da carga. Ao lado do caminhão relatado pelos oficiais – uma carreta Scânia -, logo surge o veículo GM/Meriva. O mesmo veículo em que os policiais relataram que estava o suposto envolvido no esquema tráfico e contrabando, e segundo a versão apresentada no boletim teria fugido do local, embora os registros confirmem justamente o contrário.

O motorista do carro relatado como o usado pelo traficante chega ao sítio. Os registros são bem claros e mostram ainda o acusado em conversa, próximo de policiais do BPFron. Em seguida, o veículo GM/Meriva deixa a propriedade, com o suposto traficante e outros dois ocupantes, entre eles o motorista da carga ilegal.

Passadas algumas horas, novas viaturas foram chamadas. Quando o reforço policial chega ao sítio onde a droga era carregada o carro denunciado não está mais na área. Por último, dois policiais do BPMFron são vistos levando o caminhão apreendido com a droga e os agrotóxicos contrabandeados.

Policiais acompanham a chegada do Meriva e conversa entre motorista do caminhão e suposto traficante, dono da carga; Policial ao longe apenas oberva o diálogo
Policiais acompanham a chegada do Meriva e conversa entre motorista do caminhão e suposto traficante, dono da carga; Policial ao longe apenas oberva o diálogo

Comando aponta erro de abordagem

O comando do BPFron (Batalhão de Polícia Militar de Fronteira) apura a denúncia de irregularidade na abordagem de apreensão da carga de maconha e agrotóxicos a propriedade rural de Marechal Cândido Rondon. O caso ocorreu em 28 de setembro.

O major Erich Wagner Osternack, comandante do BPFron, alega que estava em férias no período. Ele argumenta que recebeu o relado dos policiais de um suposto erro na abordagem e verificação da denúncia. “Retornei e tomei conhecimento do caso, de que houve erro no procedimento de abordagem. Enquanto os policiais conversavam com o motorista do caminhão, ao vistoriarem se a carga tinha irregularidades, o motorista havia se evadido em um GM/Meriva. Instauramos um procedimento policial para apurar a infração”.

Diante da denúncia, o comandante do BPFron alega que serão apurados todos os fatos. Por enquanto, os policiais envolvidos na abordagem não serão afastados. Osternack nega qualquer associação ao tráfico. “Vamos apurar qualquer caso de desvio de conduta, com o rigor da lei prevista. Ao que me parece não houve desvio de conduta. Houve o descuido na abordagem. Não podemos prejulgar os policiais. Abrimos o procedimento, e agora, por inquérito policial, se configurada irregularidade, tomaremos as devidas providências”.

Meriva deixa o local, com três ocupantes, entre eles o motorista do caminhão
Meriva deixa o local, com três ocupantes, entre eles o motorista do caminhão

Gaeco ouvirá policiais envolvidos no caso

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) tomou conhecimento da denúncia de irregularidade na abordagem, em Marechal Cândido Rondon, pelo BPFron. Um inquérito será aberto e os policiais convocados a prestar esclarecimentos.

O delegado do Gaeco, Thiago Nóbrega de Almeida, pretende também acionar os proprietários dos veículos apreendidos durante a ação policial para confrontar as versões. “Pretendemos ouvir todos os envolvidos. Há suspeitas de corrupção, indícios de envolvimento de policiais militares, no entanto, não podemos fazer qualquer juízo de valor à priori. Vamos apurar envolvimento de policiais militares e civis”, diz o delegado.

A Corregedoria da Polícia Militar também será acionada para que seja aberto um procedimento paralelo, para que, havendo comprovação de irregularidades, os policiais respondam tanto ao inquérito militar quanto ao civil. “O crime de corrupção está previsto no Código Penal Militar. Temos que aguardar a investigação. Mas se comprovada a denúncia de associação ao tráfico os envolvidos podem até ser expulsos da corporação”.

Só depois, reforço policial chega até a propriedade onde estava o caminhão com a droga e a carga de agrotóxicos
Só depois, reforço policial chega até a propriedade onde estava o caminhão com a droga e a carga de agrotóxicos

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Primeira do País, com uma abrangência de 150 quilômetros

A estrutura policial implantada em região de fronteira é a primeira do Brasil. O BPFron (Batalhão de Polícia Militar de Fronteira) foi criado oficialmente há um ano e três meses. Para manter as atividades na área, que fica bem próxima ao Lago de Itaipu, foram designados 90 policiais. De início, muitos vieram do Bope (Batalhão de Operações Especiais). Atualmente são 145 policiais militares empregados na estrutura.

A sede fica em Marechal Cândido Rondon, no entanto, mais duas estruturas serão descentralizadas – a 2ª Companhia de Fronteira, que ficará em Guaíra, e a 3ª Companhia, que terá sede em Santo Antônio do Sudoeste. Os prédios já foram preparados e a atuação só depende da liberação do Estado.

A abrangência de atuação é formada por 139 cidades do interior do Estado. O grupo cobre uma extensão de fronteira de 150 quilômetros, com uma população superior a 2,7 milhões de habitantes. O território extenso é um grande empecilho para combater a entrada de droga e contrabando. “No trabalho, enfrentamos diversas dificuldades. O crime organizado está bastante enraizado na região”, comenta o major Erich Wagner Osternack, comandante do BPMFron.

A organização dos criminosos está atrelada ainda a conivência de moradores, que ameaçados pelos traficantes, acabam auxiliando no transporte de cargas ilegais. Nas rodovias e nas cidades existem estratégias implantadas para sinalizar a possibilidade de passagem sem ser barrado pela fiscalização. “Muitos contrabandistas e traficantes contam com batedores de cargas. Alguns utilizam estratégias, como ‘bandeirinhas’ para sinalizar nas avenidas e estradas rurais sem presença policial no território. Também, para identificar possíveis ações ostensivas, que são monitoradas pelos criminosos”, argumenta o comandante do BPFron.

A radiofrequência para a comunicação entre os policiais é violada pelos criminosos, que descobrem o sinal e acompanham as informações passo a passo. “Nossa frequência é analógica, os rádios ainda não são digitais. Qualquer pessoa pode ouvir a frequência da polícia”.

BPMFron interceptou R$ 28 milhões em contrabando

Desde que foi implantado, o BPFron (Batalhão de Polícia de Fronteira) mobilizou grandes operações. Ao todo, o grupo participou de 34 ações na região Oeste do Paraná. Foram abordadas mais de 73 mil pessoas, 22 mil veículos, vistoriados 278 estabelecimentos e cumpridos 30 mandados.

Nas ações para desarticular a criminalidade na região Oeste e evitar a mobilização de facções no interior do Estado, foram detidos em flagrante 120 acusados. Foram interceptadas 38 armas, 26 simulacros e 1.169 munições. Os equipamentos policiais utilizados de maneira irregular também acabaram apreendidos. Foram 40 rádios portáteis e 11 rádios móveis apreendidos.

As estatísticas em relação as drogas barradas são bastante relevantes. Foram apreendidos 1,8 toneladas de maconha, 25,9 quilos de crack, 3,2 quilos de haxixe, 12,4 quilos de cocaína, 10,8 mil medicamentos ilegais e 120 frascos de lança perfume. Em relação ao contrabando, as ações também são bastante incisivas. Foram 5,3 mil caixas de cigarros contrabandeados do Paraguai interceptados pelo BPFron. O total apreendido equivale a R$ 1,5 milhão. Já em relação aos demais produtos, foram 5,6 mil volumes apreendidos. Um valor aproximado de R$ 28 milhões. A entrada ilegal de dinheiro também é barrada. Foram 21,3 mil dólares, o equivalente a R$ 390 mil, apreendidos.

Fonte: O Paraná