Apesar da escravidão ter sido abolida em 1888, pessoas ainda vivem em condições análogas a escravidão no país. É o caso de uma mulher, de 85 anos, resgatada depois de trabalhar para uma mesma família há 72 anos.

A reportagem do SBT News confirmou que a senhora trabalhou para a mesma família por três gerações, todos os dias, sem descanso e sem salário.

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Os pais da vítima moravam numa fazenda, em Vassouras, interior do Rio, onde a menina cresceu. Com 12 anos, ela se mudou para a casa do casal, e começou a prestar serviços domésticos. Quando o casal faleceu, a vítima se mudou para casa dos filhos do casal, onde continuou exercendo os mesmos serviços. Ela estava na atual residência de um membro da terceira geração da mesma família, no Cachambi, quando foi resgatada.

De acordo com informações da Assistência Social da Prefeitura do Rio, a vítima nunca soube o que a vida poderia ter lhe proporcionado. Não namorou, estudou e nem teve oportunidade de constituir uma família.

Ela foi libertada somente no dia 15 de março deste ano. Cristiane Lessa, diretora da central de idosos da Secretaria Municipal de Assistência Social, relatou que ela não tem qualquer noção de que era escrava durante todos esses anos.

Segundo informações do Ministério do Trabalho e Previdência, essa foi a exploração mais longa de uma pessoa, em situação de escravidão contemporânea no país, desde que o Brasil criou um sistema de fiscalização para enfrentar esse tipo de crime, em maio de 1995.

“Você não diga que trabalhou para a minha mãe”, teria ameaçado o patrão
De acordo com o auditor fiscal do trabalho, Alexandre Lyra, parentes da mulher foram ouvidos e relataram que ela veio para o Rio com esperança de poder estudar. Relataram ainda que visitas e telefonemas eram controlados pelos patrões.

Na ação de resgate, a vítima ainda teria sido ameaçada pelo patrão, que teria dito: “você não diga que trabalhou para a minha mãe, senão você vai foder com ela”.

Segundo Lyra, que coordenou a ação, os empregadores afirmaram que os serviços domésticos não eram trabalho, mas uma colaboração voluntária no âmbito familiar.

O acompanhamento do caso é feito pela assistência social em conjunto com o projeto Ação Integrada, coordenado pela psicóloga social, Yasmim França. Ela conta que as vítimas, geralmente, não entendem que estão sendo exploradas e acreditam ter uma dívida de gratidão.

Segundo Yasmin, as vítimas se preocupam com o “patrões” e muitas vezes pedem para voltar para as casas. A psicóloga relata que isso é comum, porque é o único convívio social que a vítima conhece.

Segundo o Ministério do Trabalho e Previdência, em 2022, cinco mulheres já foram resgatadas do trabalho escravo doméstico nos Estados do Rio Grande do Sul, Paraíba, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Há outras ações em andamento.

Trabalho escravo é crime no Brasil desde 1940
Das 1.937 pessoas em situação de escravidão resgatadas no país em 2021, 27 vítimas estavam no serviço doméstico. Em 2020, haviam sido apenas três. Desde 1940, o trabalho escravo virou crime no país.

Quatro elementos podem definir escravidão contemporânea por aqui: trabalho forçado – que envolve cerceamento do direito de ir e vir; servidão por dívida – um cativeiro atrelado a dívidas, muitas vezes fraudulentas; condições degradantes — trabalho que nega a dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida e jornada exaustiva — levar ao trabalhador ao completo esgotamento dado à intensidade da exploração, também colocando em risco sua saúde e vida.

Mais de 58 mil pessoas resgatadas em 27 anos
De acordo com o órgão, nos últimos 27 anos, 58.166 pessoas foram resgatadas pelo poder público. Em 2022, já foram resgatados 495 trabalhadores. A ação que resgatou a mulher, não identificada, começou em 21 de setembro de 2021, e ainda não terminou, uma vez que está em negociação o pagamento dos salários e direitos atrasados.

O resgate foi realizado pela Superintendência Regional do Trabalho do Rio e pelo Ministério Público do Trabalho na quinta-feira da semana passada, quando a idosa foi levada para um abrigo da Prefeitura do Rio, na Ilha do Governador, Zona Norte da cidade.

Portal Guaíra com informações do SBT News